Seções: Índice Geral Seção Atual: Índice Obra: Índice Anterior Seguinte: Índice Remissivo
|
Compre o texto digital! Livraria “Anna Kingsford” (Formatos Word ou Pdf) |
|
|
[Tradução: Arnaldo Sisson Filho.
Embora o texto em inglês seja de domínio público, a tradução não é. Esse arquivo
pode ser usado para qualquer propósito não comercial, desde que essa notificação
de propriedade seja deixada intacta.]
(p. 214)
[N.T.: Essa numeração refere-se às paginas no original.]
O VEGETARIANISMO E A BÍBLIA
1. [N.T.: Essa numeração refere-se aos parágrafos no original.]
HÁ muitas pessoas
para as quais os argumentos de natureza científica, social, econômica e até
mesmo de ordem moral a favor de uma dieta vegetariana não são suficientes, mas
que requerem, além disso, a sanção da Bíblia. Como estamos preparados para
enfrentar questionamentos também sob esse aspecto, elaboramos este breve ensaio
para responder o que poderia ser chamado de dificuldades religiosas cristãs no
caminho do vegetarianismo.
Os leitores
notarão, à medida que avançarmos, que não fazemos nenhum questionamento quanto à
autoridade da Bíblia. O único questionamento, se é que é um questionamento, será
quanto à interpretação da Bíblia, ou pelo menos quanto a certas partes da mesma.
E com o intuito de merecer uma leitura paciente e tolerante das passagens que
possam diferir das crenças que os leitores possam estar acostumados, desde logo
lembrarei que a crença da infalibilidade da Bíblia é uma coisa
– e é algo compatível com o espírito de humildade que é o único com o qual
deveríamos nos aproximar das coisas sagradas – mas a crença na infalibilidade de
nossa própria interpretação da Bíblia é outra coisa, a qual é
incompatível com aquele espírito de humildade.
Naturalmente, esse
preâmbulo pode ser totalmente supérfluo, pois pode ocorrer que os pontos de
vista que expressamos já sejam os dos leitores. Contudo, seja esse ou não o
caso, faz-se necessário para uma ampla defesa de nossa Causa que esse preâmbulo
seja feito.
2.
Em primeiro lugar,
então, qual a natureza e o propósito da Bíblia? Ela é, antes de qualquer outra
coisa, um livro religioso; não um livro científico ou histórico, mas sim uma
obra religiosa. E, assim sendo, como a religião não é algo que se direciona
principalmente aos sentidos externos ou à razão, mas algo que se relaciona com a
Alma, o apelo (chamamento) da Bíblia não é principalmente para os sentidos
externos ou para a razão, mas para a Alma.
3.
Se concordarmos com
essas premissas, então também não deveremos ter qualquer dificuldade em
concordar com as premissas que seguem. Como a Alma não é perecível como o corpo,
mas é imortal, e pode tornar-se eterna, os ensinamentos que são necessários para
ela não devem se referir a pessoas, coisas ou eventos que sejam do tempo e
transitórios, mas
(p. 215)
devem consistir em
verdades que são eternas e, portanto, passíveis de uma perpétua aplicabilidade.
4.
Do mesmo modo, uma
vez que a Bíblia – sendo um livro religioso e que se dirige à Alma, ou à parte
espiritual do homem – trata de coisas internas e espirituais, e não com coisas
externas e materiais, é na sua significação espiritual, não na forma externa,
que consiste o seu verdadeiro valor e onde ele deve ser buscado.
5.
Quanto a esse
último ponto a própria Bíblia se manifesta categoricamente, dizendo que a Letra
é algo morto e que mata, e que apenas o Espírito tem vida e dá vida. E não
apenas isso, mas a Bíblia insiste também sobre a necessidade do leitor ou
ouvinte ter um sentido interno próprio, tão somente por meio do qual o sentido
interno da Bíblia pode ser discernido. Assim, constantemente é dito, em relação
a alguma afirmação cujo significado principal esteja tão profundamente contido
de modo a se constituir em um mistério: – “O que tiver ouvidos para ouvir, que
ouça”. E constantemente ela se refere com reprimenda a pessoas que têm olhos que
não vêem e ouvidos que não ouvem o significado místico escondido sob suas frases
simbólicas.
Desse modo, longe
de aprovar a concordância (aceitação) cega e não inteligente, a Bíblia
repetidamente exalta um Espírito de Compreensão (Entendimento) como sendo o
principal dos dons (dádivas) divinos. E ao assim fazer, como podemos
observar,
a Bíblia não é inconsistente consigo mesma quando ao enumerar as graças divinas
da Fé, Esperança e Caridade, ela declara que a principal delas é a Caridade.
Pois a Caridade é uma com o Amor, e o Amor é um com a Simpatia, e a Simpatia é o
primeiro e o último passo da Compreensão (Entendimento). Assim, é para a vossa
Compreensão (para o vosso Entendimento) que apelamos no que diz respeito ao
reconhecimento daquilo que apresentaremos nesta ocasião.
6.
Das premissas assim
estabelecidas, decorre a seguinte importante conclusão, a qual é uma
chave-mestra para a interpretação das Escrituras: – Tudo o que há de mais
verdadeiro na Bíblia é espiritual, e nenhum dogma ou doutrina são verdadeiros
quando pareçam ter um significado físico, ou que não seja espiritual. Se forem
verdadeiros e, contudo, nos pareçam ter uma significação material, é porque nós
ainda não os resolvemos, e assim se constituem para nós num mistério, para o
qual ainda temos que buscar a interpretação. Aquilo que é verdadeiro é para o
Espírito tão somente. (1)
7.
Então, não apenas a
Bíblia se dirige à Alma, mas ela contém, e é, a história da Alma. E ela está
escrita – como seria de se esperar de sua origem egípcia – em hieróglifos, ou em
símbolos sagrados, o método usual para os egípcios, e deles adotado pelos
hebreus; ou, também poderia ser, o
(p. 216)
método dos hebreus, o
povo sagrado, desde o princípio, e que esse método tenha sido introduzido por
eles no Egito.
Esse método de
escrever consiste em descrever coisas espirituais e que pertencem à Alma, como
figuras ou em termos derivados do mundo físico. De modo que o que se significa
não é o animal, a planta, a pessoa, ou outro objeto desenhado ou escrito, mas
sim uma outra coisa, a qual o tal objeto foi selecionada para representar, e da
qual ele se torna o símbolo, o tipo ou a representação.
Tendo sido escrita
dessa maneira, a Bíblia, ou pelo menos a sua parte espiritual e não meramente
histórica, é um hieróglifo, denotando sob a forma de vários objetos físicos –
tais como a narrativa de eventos aparentemente mundanos, e biografias
aparentemente de pessoas reais, entre outras coisas do mundo natural – processos
que são puramente espirituais e místicos.
A Bíblia, em
síntese, pode ser definida como uma coleção de parábolas narrando a história da
Alma, desde sua primeira descida na matéria, até o seu retorno final para sua
condição original de puro espírito. E como a Alma passa pelo mesmo processo quer
se trate de uma só ou de muitas – seja uma pessoa, uma igreja, uma raça, ou
mesmo o universo como um todo – a narrativa que descreve, ou a parábola que
representa a história de um, igualmente o faz para todos. E os mesmos termos,
que são três em número, abrangem todo o processo.
Esses termos são
Geração, Degeneração e Regeneração, e esses, portanto, sendo aplicados à Alma, são o tema da Bíblia, conforme agora mostraremos, e não a
história física, ou qualquer pessoa ou povo seja lá qual for, muito embora sejam
descritos em termos derivados de pessoas ou de um povo. E tomar tais pessoas,
povos ou um outro símbolo por qualquer outra coisa que não sejam os seus
apropriados papéis de símbolos, e ignorando o seu verdadeiro significado, e
dar-lhes a honra devida apenas àquilo que de fato eles significam trata-se, em
linguagem bíblica, de cometer idolatria.
Pois, ao assim
proceder, nós materializamos mistérios espirituais, e conferimos à Forma a
consideração devida apenas à Substância. Onde quer que compreendamos como coisas
Sensoriais coisas que tão somente pertencem ao Espírito, encobrindo assim as
verdadeiras feições da Divindade com representações falsas e espúrias, nós
cometemos o que a Bíblia considera como o mais repugnante dos pecados, e nos
tornamos idólatras e, ao mesmo tempo, nos identificamos com aquela escola
materialista que está rapidamente se espalhando pelo mundo com o objetivo
declarado de erradicar a própria idéia de Deus e de Alma.
8.
Isso porque “Idolatria é Materialismo, o pecado comum e original dos homens, o
qual substitui o Espírito pela Aparência, a Substância pela Ilusão, e conduz
tanto o Ser moral quanto o Ser intelectual ao
(p. 217)
erro, de modo que eles
substituem o superior pelo inferior, e o elevado pelo superficial. É esse falso fruto que atrai os sentidos externos, a tentação da
serpente no começo do mundo”; (1)
e isso tanto para a raça quanto para cada indivíduo onde e quando quer que tenha
vivido, pois todos estão sujeitos à sua atração.
9.
Devemos então
saber, para a reta compreensão das escrituras místicas, que em seu sentido
esotérico, ou interior e real, elas não tratam de coisas materiais, mas de
realidades espirituais; e que nem Adão é um homem real, porém antes denota a
personalidade inferior ou força intelectual em todo ser humano; nem Eva uma
mulher real, mas denota o elemento feminino em todo o ser humano, a saber, a
Alma ou consciência moral; e ela é, portanto, chamada de a “Mãe dos que Vivem”,
ou seja, dos que estão espiritualmente vivos – aqueles nos
quais a Alma alcançou autoconsciência.
Tampouco o Éden é
um lugar real, mas uma condição de inocência anterior a uma queda de uma altura
alcançada. Nem é a Árvore da Vida no meio do Éden uma árvore real, porém Deus
estabelecido no meio do Universo como sua vida. Do mesmo modo que não é o homem
feito de imediato à imagem e semelhança de Deus, mas somente após longas eras de
desenvolvimento, começando nas formas inferiores da vida vegetal, e seguindo sua
elevação através de muitas formas, até que ele alcança a forma humana; e mesmo
então ele não é feito à imagem de Deus, não é verdadeiramente homem no sentido
bíblico e místico. Pois nesse sentido faz-se necessário algo mais do que o homem
físico, mais do que o homem intelectual, mais até mesmo do que o homem moral,
para tornar-se um homem.
Para ser feito à
imagem e semelhança de Deus ele deve atingir sua maioridade espiritual, através
do desenvolvimento da consciência de sua natureza espiritual. Ele deve ser alma
tanto quanto corpo; Eva tanto quanto Adão; assim como no mundo físico, também no
plano espiritual ele requer a mulher para lhe fazer um homem, e a mulher mística
é a Alma. Antes do seu advento (da Alma), ele é o homem apenas
materialístico e rudimentar, é homem apenas na forma, e é um animal em
todos os outros aspectos.
Mas ela vem
finalmente, manifestada como tão somente a Alma pode fazer, quando seu ser
inferior está envolto em profundo sono, e ele acorda para descobrir-se
plenamente homem, à imagem de Deus, macho e fêmea, no sentido
que ele representa os dois aspectos, masculino e feminino da Deidade, o poder
divino e o amor divino, e também os Sete Espíritos através dos quais Deus cria
todas as coisas. Assim constituído ele é de fato Homem, pois ele é uma
manifestação de Deus,
(p. 218)
por cujo espírito,
operando dentro dele, ele tem sido criado. E criado desse modo tem sido e será
todo o homem que jamais viveu ou viverá.
10.
Porém o processo
inclui um ponto chamado de Queda. Entregando-se aos impulsos externos da
natureza inferior, antes que ela seja suficientemente forte para resisti-los,
Eva estende sua mão e apanha o fruto que, como ela é espiritual e ele é material
– é Matéria – é proibido para ela. Em outras palavras, e despido de alegoria, a
Alma, ou ser superior, cai sob o poder do ser inferior e perde a intuição do
Espírito, e o homem, não mais sendo por ela sustentado, a segue em sua queda.
Assim, o ser
inferior, com os seus apetites e os seus pensamentos, torna-se o único regente,
e a sua prole é Caim, o assassino e até mesmo
torturador de seus irmãos, humanos e animais. E quando Abel, que como ministro
da Alma e de suas intuições representa o profeta, oferece a
Deus as “primícias de seu rebanho” [Gênesis 4:4], ou seja, quando o “Cordeiro” de um coração puro e
gentil faz sua aparição, ele é em seguida assassinado por
Caim, o qual, como o escravo dos sentidos, ofertando os “produtos do
solo” [Gênesis 4:3], ou da natureza
inferior, representa o sacerdote. (1)
11.
Nesse sentido,
então, Abel não promoveu nenhum derramamento de sangue e não foi agente da morte
de criaturas inocentes, tanto para sacrifício quanto para alimento. Seu
“Cordeiro” significava simplesmente os mais santos e elevados dons espirituais,
“Cordeiro” que, rejeitado e assassinado desde o começo do mundo, é apresentado
no Apocalipse como finalmente ocupando o trono de Deus, cercado de todos aqueles
que, redimidos em razão de o terem seguido, têm o nome do Pai escrito em suas
frontes.
Pois é ainda a Alma
que, sob a representação da mulher, quando purificada da Matéria, torna-se a
Noiva do Espírito, e Mãe dos que vivem eternamente; enquanto que é a Alma que
persiste no mal que é denominada de “Mãe das Abominações”, e que compartilha da
desgraça da “Babilônia”, ou “aquela grande cidade”, o mundo ou sistema de
civilização no qual a Matéria é exaltada e posta no
sagrado lugar de Deus e da Alma, e o corpo é feito como sendo tudo e por tudo.
12.
A mesma verdade
espiritual reaparece muitas e muitas vezes nos livros
sagrados, sob várias formas alegóricas. Sempre são a ternura
de coração e a pureza de hábitos os acompanhantes da vida superior;
sempre são o derramamento de sangue e o comer carnes os resultados de uma queda
para um nível inferior. A estória do Dilúvio ilustra a mesma verdade, e à
matança de animais acrescenta
(p. 219)
a bebedeira. Nessa
parábola, o homem é representado, depois de um período de decadência até um
extremo materialismo, como uma vez mais, sob uma enchente de intuição,
recuperando aquelas alturas da perfeição – a plena consciência de sua natureza
espiritual.
Mas tão logo ele
desce do monte da purificação e regeneração, ele vai novamente para a indecência
e o derramamento de sangue, de tal modo que a Deidade é representada como tendo
desistido dele, o considerando perdido e sem esperanças, dizendo que não haveria
mais utilidade em puni-lo, e dando-lhe relutante permissão para usar a carne
como seu alimento. Pois tal é o óbvio e verdadeiro sentido da passagem tão
confusamente traduzida no nono capítulo do Gênesis. E, contudo, constantemente
encontramos uma permissão, que foi o resultado de uma queda, colocada como uma
escusa para declinar de fazermos um esforço de recuperação!
Que tal recuperação
não é vista na Bíblia como sendo impossível é mostrado pela escolha de um
símbolo de esperança – o arco-íris com os seus sete raios. Pois esse é novamente
o símbolo da Mulher ou Alma, a qual, quando restaurada na pureza, e divinamente
iluminada, manifesta os Sete Espíritos de Deus. Essa é uma realização para a
qual a Alma sempre guarda a potencialidade em seu seio, e em virtude disso um
dia será novamente a produtora de homens “feitos à imagem de Deus”.
13.
A contenda, já
referida, entre profeta e sacerdote, como sendo respectivamente ministros da
Alma e dos sentidos, da vida pura e do derramamento de sangue, é levada adiante
através de toda a Bíblia, até que ela culmina no assassinato pelos sacerdotes do
maior dos profetas. Pois os profetas não faziam derramamento de sangue; e todas
as narrativas que representam Moisés, Samuel, Elias, e outros profetas como
estando engajados na matança de pessoas de seu povo ou de tribos vizinhas –
narrativas que pelo seu horror aparente são de imediato obstáculos para os fiéis e uma oportunidade de
zombaria para os descrentes – representam simplesmente os conflitos da Alma com
as más tendências do homem que ela anima.
E se, além disso,
tivessem os tradutores da Bíblia sido devidamente talhados para essa tarefa,
primeiro, pela posse do necessário conhecimento de Hebraico; em segundo lugar,
pela posse do necessário discernimento das coisas divinas; e em terceiro lugar,
por estarem livres de inclinações prévias em favor de uma concepção sanguinária
do caráter divino, eles teriam trazido para o inglês [N.T.: Língua do original.], os nomes das vítimas desses massacres, ao
invés de mantê-los no original; e desse modo teríamos visto nessas narrativas
apenas uma antecipação do método seguido nas obras “O
Progresso do Peregrino” e “Guerra
(p. 220)
Santa” de Bunyan.
Quanto aos próprios
escritores da Bíblia, podemos crer que, caso eles pudessem ter antevisto a que
profundezas de estupidez (insensibilidade) um regime de carne e de estimulantes
pode reduzir um povo de outro modo não carente de inteligência, depois de viver
por dois mil anos com esse regime – a estupidez demonstrada por tomarmos suas
parábolas como verdades literais – eles teriam renunciado de imediato ao seu
método favorito, e falado diretamente.
14.
O método empregado
por Moisés não era nenhum outro senão o método que foi acima descrito. Instruído
em todos os Mistérios da religião dos egípcios, ele os ministrou como mistérios
para o seu próprio povo, ensinando a seus iniciados o espírito dos hieróglifos
celestes, e pedindo-lhes que quando celebrassem festivais para Deus, que
carregassem em procissão, com músicas e danças, aqueles animais sagrados que
fossem relacionados com a dada ocasião, em vista do seu significado interior. E
desses animais ele especialmente designou machos de um ano, sem mancha ou
defeito, para significar que é necessário acima de todas as coisas que o homem
dedique ao Senhor seu intelecto e sua razão, e isso desde o começo e sem a menor
reserva.
Os sacerdotes,
então, foram idólatras, os quais, vindo depois de Moisés, e pondo sob a forma
escrita aquelas coisas que pela palavra de sua boca havia comunicado a Israel,
substituíram os verdadeiros significados das coisas pelos seus meros símbolos
materiais, e derramaram sangue inocente nos puros altares do Senhor. (1)
15.
Os profetas desse
modo, como já foi dito, não promoviam derramamento de sangue. Não trataram de
coisas materiais, porém com significados espirituais. Seus cordeiros sem
manchas, suas pombas brancas, seus bodes, seus carneiros, e outras criaturas
sagradas, são signos e símbolos dos vários dons e graças que as pessoas místicas
devem oferecer aos céus. Sem tais
sacrifícios não há remissão do pecado.
Mas quando o
sentido místico foi perdido, então a matança (carnificina) veio
Em vão, mesmo para
nós, os
(p. 221)
profetas têm falado, e em vão tem Cristo se
manifestado. (1) Pois todo o tema principal do ensinamento de
Cristo e a moral da vida de Cristo, por meio dos quais ele vindicou ao mesmo
tempo a Lei e os Profetas, é que um homem não pode ser salvo por nenhum ato de
outro, ou por qualquer processo que ocorra fora dele mesmo; que “ninguém pode
por qualquer meio redimir seu irmão, nem pagar a Deus um resgate por ele (pagar
o seu preço)” [Salmos 49:8]; e que, portanto, nenhum tipo de oferenda queimada,
ou de oferenda pelos pecados, nem qualquer sacrifício físico ou material seja lá
qual for, pode salvar um homem de seus pecados e de suas conseqüências, mas tão
somente um coração humilde e arrependido, e um espírito puro dentro do próprio
homem, e uma vida de acordo com isso.
Se apenas uma vez
pudermos ler a Bíblia com a visão não obscurecida pelo véu de sangue, e não
distorcida pelo preconceito, então todo o seu mistério – o mistério de nossa
queda e de nossa redenção – torna-se claro como o céu sem nuvens. Pois, então,
podemos identificar como algo que ocorre em nossas próprias almas todo o
processo, desde o começo até o fim, que a Bíblia, do Gênesis até o Apocalipse,
apresenta sob a forma de símbolos e parábolas, precisamente como fez Nosso
Senhor ele mesmo.
E, assim fazendo,
nós chegamos a conhecer de forma absoluta, pela experiência individual de nossas
próprias almas que o segredo e o método do Cristo não é nenhum outro do que
aquele processo interior de purificação e regeneração, tão somente por meio do
qual o espírito no homem retorna a sua condição original de pureza, tornando-o
um homem novo, uno com Deus, que é puro Espírito.
É esse processo de
transmutação, ou redenção do Espírito da Matéria, tanto na dimensão individual
quanto na universal, que constitui o tema das sagradas escrituras, o objeto de
todas as religiões verdadeiras, e a tarefa de todas as verdadeiras igrejas. E
são os vários estágios desse processo que constituem respectivamente a Queda de
Adão por meio da submissão da Eva dentro dele à serpente da Matéria; a descida
de Israel, ou da Alma, até o Egito, ou o mundo e os sentidos; e o Êxodo ou fuga
do mundo através da água da separação e consagração até o deserto, até a região
erma da experiência beneficente; e a travessia do rio Jordão, ou rio da
purificação, para tomar posse da terra prometida da perfeição.
Novamente, são
esses vários estágios desse processo que estão representados na história do
Evangelho do típico homem regenerado. Sejam eles chamados de água e espírito, ou
de alma pura e a divina operação que nela ocorre, ou da Virgem Maria e o
Espírito Santo, é desses dois dentro de cada homem que finalmente é redimido,
que
(p. 222)
o homem novo, ou o
homem regenerado, o Cristo Jesus – que sempre é o “único Filho gerado por Deus”
(“Filho único de Deus”)
[João
3:16, 18] – é produzido.
E é sempre pela
crucificação e morte na cruz da renúncia daquele velho Adão, o ser inferior, e a
ressurreição e ascensão para uma condição de perfeição verdadeira que a salvação
é finalmente alcançada. E a razão pela qual todas essas
verdades eternas na história da alma foram centralmente colocadas na vida do
profeta de Nazaré é simplesmente porque, reconhecendo nele os sinais ou
testemunho de sua realização de perfeição num grau nunca antes alcançado, e em
sua história as adequadas correspondências simbólicas, o Espírito Divino, sob
cuja inspiração os Evangelhos foram compostos, o selecionou como o ícone das
possibilidades da humanidade em geral.
16.
Porém, mesmo
rejeitando dessa maneira como sendo idólatra, como uma
blasfêmia, e como perniciosa no mais alto grau à doutrina, conforme ela é
comumente conhecida, da Redenção ou Reconciliação Vicariante [N.T.: Aquela realizada por alguém em lugar de
outro; no caso o sacrifício de Jesus Cristo para nos redimir do pecado, para nos
reconciliar com Deus.], ainda vemos
Mas é o Cristo
Jesus dentro de nós, ou o homem que renasceu de alma e espírito puros, como o
próprio Jesus declarou que todos devem nascer – exatamente do mesmo modo como se
descreve que Ele nasceu – a quem buscamos para nos
salvar. E os meios são Sua cruz de auto-sacrifício, renúncia, e pureza de vida;
e a recepção em nós mesmos daquele “Sangue de Deus” que não é nenhum sangue
meramente físico – com o qual as imperfeições morais não possuem nenhuma relação
– mas que é a vida de Deus, o próprio Espírito
puro, o qual é Deus, e o qual Deus está sempre derramando em abundância para o
bem de Suas criaturas, dando a elas de sua própria vida e substância.
17.
Quão perniciosa é a
doutrina da redenção (ou reconciliação) vicariante, conforme ela é comumente
aceita, é algo que pode ser visto pelas atuais condições do mundo:
intelectualmente, moralmente e espiritualmente, não menos do que fisicamente. O
homem sempre se constrói segundo a imagem de seu Deus, isto é, segundo a sua
idéia de Deus. E acreditando
É precisamente essa
má representação do caráter divino, e essa perversão da verdadeira e da única
possível doutrina da reconciliação ou redenção, em uma doutrina que faz a
salvação do homem um processo externo a si mesmo, e dependente da ação de outro
que não ele mesmo, que, por meio da falsificação do Cristianismo, provocou o seu
fracasso. E, ao invés de um mundo ordenado por princípios de justiça, simpatia
e
(p. 223)
pureza, nos legou um
mundo de más ações, de egoísmo e de sensualismo.
De acordo com o
verdadeiro Evangelho, conforme declarado pelos profetas, a substância da
humanidade não é material e criada, mas sim espiritual e divina. E o homem se
eleva além de sua natureza inferior até sua natureza superior ao subordinar os
primeiros aos últimos, elevando-se assim totalmente ao superior, tornando-se com
isso divino – pois entre Espírito e Matéria não há linha fronteiriça. Esse
conhecimento era o tesouro sem preço do qual Israel, ao fugir ou libertar-se,
“despojou os egípcios”. [Êxodo 12:36] Esse era o grande segredo de todos os sagrados
mistérios desde o princípio.
Ao contrário desse,
trata-se de um falso evangelho, aquele que tendo origem nos sacerdotes, e
desafiando ao mesmo tempo o intelecto e a intuição, atribui a salvação a uma
operação vicariante, e, ao invés do sacrifício de nossa própria natureza
inferior para a nossa natureza superior, e de nós mesmos para os demais, insiste
no sacrifício de nossa natureza superior para a inferior, e dos outros para nós
mesmos.
É dessa inversão da
ordem divina que o hábito de comer carne e a vivissecção – aquela mais infernal
de todas as práticas que sugiram do abismo sem fundo da natureza inferior do
homem – são os diretos e inevitáveis resultados. E até que a ordem divina seja
restaurada, tanto em ato quanto em pensamento, pela renúncia da doutrina do
sacrifício vicariante, conforme comumente sustentado, e pela conseqüente
reabilitação do caráter de Deus, todos os nossos esforços de melhoramento devem
ser em vão; nossa civilização será tão somente uma falsificação, um simulacro
desse termo; e nossa moralidade e religião serão coisas das quais se pode dizer
que estaríamos melhor sem elas.
18.
Em conclusão: aquilo que buscamos não é uma reforma de instituições meramente, ou a promoção de benefícios materiais meramente, mas sim uma radical renovação da própria Substância dos homens em todos os planos de suas naturezas, com vistas à realização daquilo que há tanto tempo foi prometido: “novos céus e nova terra onde habitará a Retidão (a Justiça)” [2 Pedro 3:13], e o advento daquele perfeito estado, a Nova Jerusalém, ou Cidade que tem Deus como sua luz, a luz que desce do céu da região celestial do próprio homem, aquele reino dos céus que está dentro dele mesmo, mas o qual jamais pode ser realizado por aqueles que persistem em ordenar suas vidas de modo a tornarem necessários o derramamento de sangue e a injustiça.
19.
“Ele te mostrou, ó homem, o que é bom; e o que o Senhor exige de ti: nada mais do que agir com justiça, gostar do amor, e caminhar humildemente com o teu Deus!” [Miquéias 6:8] “Eles
(p. 224)
não ferirão e nem destruirão em toda a minha montanha sagrada, disse o Senhor.” [Isaías 65:25]
20.
Se nos for perguntado, qual a fonte, e qual a autoridade para essa interpretação, responderemos que há apenas uma fonte e autoridade para a verdade, e essa é a Alma do próprio homem, e que para obter acesso a esse lugar, e conhecer a doutrina, é necessário fazer a Vontade do Pai, e viver a vida pura que é requerida.
Pois a Alma vê divinamente, e nunca esquece aquilo que uma vez aprendeu. E tudo o que ela conhece está a serviço daquele que para com ela tem os devidos cuidados e a cultiva. Dela advém, diretamente e sem mescla de adulteração humana, aquilo que recém foi dito. E não há nenhuma outra fonte ou método de revelação divina.
É verdade, como se supõe geralmente, que a revelação divina é pronunciada por uma voz vinda do céu. Mas o céu é o mais íntimo santuário do templo do próprio homem, e a voz é a de Deus lá falando. Somente onde o terreno, o qual é o corpo, é puro e é nutrido com pureza, de modo que nenhuma exalação nociva surja para obscurecer a atmosfera, é que homem e sua Alma podem entabular conversação direta.
Vivendo da maneira que o mundo vive hoje, ele não pode conhecer as potencialidades da humanidade. Daí segue que ele diviniza uma espécie mais adiantada, à custa do resto da raça, quando na verdade todos são divinos, se apenas os deixarem assim ser. E a revelação é, tanto quanto a razão, o atributo natural do homem. Que tão somente viva com pureza, e ele reverterá a Queda.
NOTAS
DE RODAPÉ
(215:1) Vide a Iluminação
de Anna Kingsford “Concerning the Prophecy of the
Immaculate
Conception” (Sobre a Profecia da Imaculada Conceição), em Clothed with the Sun (Vestida com o
Sol), Parte I, nº. 3.
(217:1) Vide a Iluminação
de Anna Kingsford “Concerning the Interpretation
of the
Mystical
Scriptures” (Sobre a Interpretação das Escrituras Místicas), em
Clothed with the Sun (Vestida com o
Sol), Parte I, nº. 5.
(218:1) Vide o Prefácio Biográfico, p. 28.
(220:1) See
A.K.’s Illumination Concerning the Interpretation of the Mystical Scriptures, in Clothed with the Sun,
(221:1) See
A.K.’s Illumination Concerning the Interpretation of the Mystical Scriptures, in Clothed with the Sun,
Seções: Índice Geral Seção Atual: Índice Obra: Índice Anterior