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IV.

 

A Bíblia Insiste no Sentido Esotérico

 

            1. (*) Mas, primeiro, vamos defender a partir da própria Escritura, a afirmação da presença nela de um sentido esotérico no qual a Escritura insiste como sendo seu sentido verdadeiro e divinamente designado.

 

            Que tal defesa seja de todo necessária é por si só uma prova positiva, não simplesmente da inadequação, mas também da maneira injusta com que a Escritura tem sido tratada por seus expositores oficiais.

 

            Mas que essa defesa é algo necessário fica demonstrado indiscutivelmente pela acusação de blasfêmia com que esses expositores estão acostumados a levantar contra os que advogam um sentido esotérico, com o argumento de que tal sentido visa “desviar a Escritura de seu sentido óbvio” – ou seja, o sentido “óbvio”, não o espiritual, mas a visão superficial – e até rotulando seus escritores de insanos por atribuirem um sentido diferente do óbvio! Como se as coisas espirituais pudessem ser “óbvias” para a visão superficial! Nesse ponto os literalistas demonstram que são incapazes de ver que fazer com que o sentido “óbvio” da Bíblia seja o seu sentido real seria destruí-la enquanto uma Bíblia, ou um livro da alma; uma vez que como livro da alma ela deve apelar à alma e não aos sentidos; e deve se referir não a pessoas, coisas e eventos pertencentes ao plano físico, mas a princípios, processos e estados puramente espirituais – ainda que expressos em termos derivados do plano físico – usando pessoas, coisas e eventos tão somente como forma de ilustração.

 

            2. Os literalistas falham, além disso, em ver que – diante do fato de que todas as Escrituras antigas foram escritas de forma similar, ou seja, por meio de símbolos, parábolas e alegorias – insistir que a Bíblia tenha sido concebida literalmente é torná-la absolutamente diferente de todos os outros livros de sua ordem. As seguintes são algumas das passagens em que nos baseamos: –

 

3. “Tu verás o meu dorso”

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(os revestimentos usados como coberturas externas do santuário, e o material dos livros), “mas Minha face tu não verás” [Êxodo 33:23]. (Nessa passagem Moises é informado que apenas o sentido externo, e não o verdadeiro sentido da Palavra Divina, seria reconhecido em sua época, pela razão dada a seguir: “a dureza do coração dos homens”.)

 

            4. “Moisés não lhes deu o pão do céu,” – (o alimento da compreensão). [João 6:32].

 

            5. “Mesmo até nossos dias, quando Moisés é lido, o véu está sobre seus corações. No entanto (...) ele será removido” [2 Coríntios 3:15-16].

 

6. “Ele tira o primeiro, para que ele possa estabelecer o segundo” [Hebreus 10:9].

 

            7. “E eles (os Levitas e Anciões) leram no livro, na lei de Deus, com uma interpretação, e fizeram com que eles (o povo) compreendessem a leitura” [Neemias 8:8].

 

            8. “E o coração bom, ou compreensivo (Caleb) disse, aquele que derrotar a cidade (ou sistema) da letra (Quiriate-Sefer) e a conquistar, a ele concederei o Rasgar do Véu (Acsa), minha filha, por esposa.”

 

            9. “E o homem forte de Deus (Otniel) tomou-a, e ele concedeu-lhe o Rasgar do Véu, sua filha, por esposa.

 

            10. (E ela lhe trouxe como dote “as fontes superiores e inferiores”, uma expressão de uso frequete nas Escrituras para significar a satisfação de necessidades espirituais.)

 

            11. “E aquilo que antes era chamado de a cidade, ou o sistema da letra, foi depois disso chamado de a Palavra (Debir)” [Josué 15:15-19].

 

            12. “Falamos teosofia (theou Sophia) em um mistério, até mesmo a sabedoria oculta (de Deus).

 

            13. “Sabedoria dentre aqueles que são perfeitos (literalmente, maduros, implicando iniciados). (...), aos outros falamos como crianças pequenas” [1 Coríntios 2:6 e 1 Coríntios 3:1]

 

            14. “Tais coisas (no livro de Moisés) são uma alegoria;

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pois há duas alianças: uma é a do Monte Sinai, que gerou enquanto cativa, que é Agar” (a estrangeira que deve ser descartada como alheia à alma e ao verdadeiro sentido) [Gálatas 4:24].

 

            15. “Mas Jerusalém, que pertence ao alto (a doutrina perfeita, contida nos sentidos internos) é livre, a qual é a mãe de nós todos.

 

            16. “Mas o que diz a Escritura? Expulse a mulher cativa (o sentido literal) e seu filho” (a falsidade gerada a partir desse sentido) [Gálatas 4:24-30].

 

            17. “Não percebeis ainda, tampouco compreendeis? Tendes vossos corações endurecidos?

 

            18. “Tendo olhos, não vedes? Tendo ouvidos, não escutais, e não vos lembrais?

 

            19. “Como é que não compreendeis?”

 

            20. “Prestem atenção; acautelem-se do fermento dos fariseus” (literalismo e formalismo), “e do fermento de Herodes” [Mateus 16:6] (o Sacerdotalismo, que é sempre o assassino da intuição pura, e, por conseguinte, isso o assassino da inocência no homem. Tanto a palavra quanto o fato indicam Herodes como idêntico à Serpente do Éden).

 

            21. “Ó tolos e lerdos de coração para crerem em tudo o que os profetas falaram. (...) E começando por Moisés e todos os demais profetas, ele interpretou para eles em todas as Escrituras as coisas que diziam respeito a ele próprio” [Lucas 24:27]. (Pouco ou nada disso aparece numa leitura superficial dos livros mencionados.)

 

            22. “Ai de vocês advogados (Sacerdotes)”! “Pois vocês jogaram fora a chave do conhecimento (Gnosis); vós mesmos não adentraram, e aqueles que teriam adentrado vocês os tem impedido” [Lucas 11:52]. (Dirigido ao Sacerdotalismo de todos os tempos.)

 

            23. “Mas isso eu (Paulo) confesso a vós, que segundo a maneira com que eles” – os sacerdotes, meus acusadores – “chamam de heresia, assim louvo eu o Deus de meus pais, acreditando em coisas que estão escritas na lei e nos profetas” [Atos, 24:14].

 

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            24. Pois, como Jonas foi um sinal para o povo de Nínive, assim também será o Filho do homem para esta geração” [Lucas 11:30] (Pois o engolir Jonas pela baleia representou a supressão da verdadeira doutrina pelo Sacerdotalismo de seu tempo, e sua expulsão [de dentro dela], representou a restauração dessa doutrina, por meio da qual a Igreja foi liberta para cumprir sua missão, e assim seria Cristo uma demonstração individual dessa doutrina para o mundo, a despeito de sua supressão pelo Sacerdotalismo de Seu tempo.)

 

            25. “Se viverdes segundo a carne, morrereis.” [Romanos 8:13]

 

            26. “Daqui em diante, não conhecemos nenhum homem segundo a carne; sim, ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, no entanto, agora e daqui em diante já não O conhecemos mais.” [2 Coríntios 5:14]. (A carne denota aqui o sentido literal e pessoal, em distinção à verdade espiritual representada por Cristo, a saber, a doutrina da salvação pela regeneração como o caminho único para todos.)

 

            27. “Se Davi então o chamou de Senhor, como é ele seu Filho?” [Mateus 22:45]. (Um exemplo da confusão causada por se entender como sendo pessoas onde princípios era o significado pretendido).

 

            28. “Dê a César as coisas que são de César, e a Deus as coisas que são de Deus” [Mateus 22:21]. (Essa é uma injunção que se dá em razão de se atribuir o devido valor relativo aos dois sentidos das Escrituras, em distinção à preferência exclusiva pelo sentido superficial.)

 

            29. “Compreendeis o que ledes?” “Como poderia eu compreender a menos que alguém me orientasse?” [Atos 8:30-31].

 

            30. “Sois um Mestre de Israel e não conheceis essas coisas?” [João 3:10]. (Essa é uma reprimenda dirigida ao Sacerdotalismo de todas as épocas devido a sua cegueira quanto à doutrina espiritual da regeneração, e sua preferência pela doutrina sacerdotal do sacrifício vicário, enquanto que o próprio Jesus foi o categórico e típico exemplo da doutrina espiritual da regeneração.)

 

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            31. “Abre meus olhos de modo que eu possa perceber as coisas maravilhosas contidas na tua lei!” [Salmos 119:19]

 

            32. “Mistério; Babilônia a grande; a mãe das prostitutas e das abominações da terra.” [Apocalipse 17:5]. (Essa é uma denúncia feita por Jesus, falando por seu “Anjo” através de “João o Divino”, contra o Sacerdotalismo como sendo a “Mulher Escarlate”, por negar ao homem a faculdade do entendimento, ao insistir na autoridade como o critério de verdade, e fazendo com que o Mistério consista em algo que transcende e contradiz a razão, ao invés de simplesmente requerer que a razão seja aplicada a um plano mais elevado, uma vez que é espiritual; falsificando, portanto, a doutrina totalmente razoável, representada por Jesus.)

 

NOTA

 

(12:*) N.T.: Essa numeração indica os parágrafos no original, em inglês.

 

 

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